DOUTRINA MÉDICA 學 說 XUÉ SHUŌ
Parte I
Madel LUZ(1), coordenadora da Linha de Pesquisa Racionalidades Médicas, do CNPq - Conselho Naccional de Pesquisa, desenvolvido no Instituto de Medicina Social, da UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro, definiu a instância "Doutrina Médica" das racionalidades médicas como sendo a formulação de certas concepções teóricas, ou racionalmente elaboradas, sobre a origem, as causas e a natureza do adoecer no homem.
Na medicina ocidental contemporânea, a doutrina médica foi estruturada a partir dos modelos de cientificidade oriundos do desenvolvimento da Física clássica e apoiados nos estudos anátomo-patológicos, estando referida ao conceito de doença, suas causas, evolução e tratamento.
Segundo CAMARGO JR(2), na Medicina Ocidental Contemporânea, a doutrina médica traz implícitamente a idéia que as doenças são objetos com existência autônoma, traduzíveis pela ocorrência de lesões que seriam, por sua vez, decorrência de uma cadeia de eventos desencadeados a partir de uma causa ou de causas múltiplas.
Os odontólogos JOSÉ FERREIRA LIMA JÚNIOR e ELISABETE CRISTINA FAGUNDES DE SOUZA3, do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, fazem uma interessante crítica aos pressupostos da doutrina médica da medicina ocidental contemporânea, mostrando como, atualmente, a prática médica é revestida de um componente bastante paradoxal. A prática médica desvinculou-se daquele que deveria ser o objeto maior de sua atenção, o paciente. Este precisaria ser deslocado para que o médico concentre na doença, essa, sim, preocupação maior da medicina. Isso nos remeteria a um fato interessante: a verdadeira e única razão da existência da figura do profissional médico, o sofrimento humano, acaba sendo colocado em plano secundário. Defendem a necessidade de se fazer uma análise crítica do pensar e do agir médicos da medicina ocidental contemporânea, para encontrar alternativas que venham a mudar tal forma de pensar. Ainda, segundo eles, é imperativo que haja uma harmonia nessa prática médica, de modo que o doente, e não a doença, seja o cerne da atenção. O objeto maior da medicina não pode ser a patologia, ou pelo menos não deveria, já que esta não existe sozinha. Sua existência é dependente de um ser humano, que possui anseios, crenças, valores, sentimentos e emoções. Assim, segundo eles, o ser humano resulta completamente anulado, fragmentado, despersonificado, enfim, reduzido a uma doença que, por sua vez, é exaltada e se torna mais importante que ele próprio, protagonizando o adoecimento humano.
Na medicina chinesa, a doutrina médica é inserida numa visão da realidade em contínuo movimento e transformação, sendo o adoecimento visto como alterações, desequilíbrios ou desarmonias nos movimentos internos e nas transformações da fisiologia humana.
A medicina chinesa também parte de uma queixa do indivíduo e identifica sinais e sintomas, porém busca focalizar a totalidade dos processos em curso no doente, em termos de aspectos físicos, psíquicos e emocionais, visando identificar as alterações, os desequilíbrios ou as desarmonias nos movimentos internos e nas transformações da fisiologia humana, expressos frequentemente um padrões de desarmonia ou síndromes, BIÀN ZHÈNG 辨証.
Na medicina chinesa, cada pessoa é um indivíduo singular que adoece de uma maneira peculiar sua e que deve receber um tratamento específico, não havendo um tratamento único para todas as pessoas que apresentam aqueles sinais e sintomas, ou, mesmo, aquela "doença" diagnosticada pela medicina ocidental contemporânea.Ted J. KAPTCHUK4 ilustra muito bem esta questão mostrando como 19 doenças da medicina ocidental contemporânea podem ser explicadas por diferentes configurações de síndromes da medicina chinesa.
Nessa racionalidade, a doutrina médica subjacente e o raciocínio clínico decorrente não seguem uma lógica de causa e efeito, um pensamento mecanicista, mas, sim, busca compreender a dinâmica em curso para avaliar como intervir para reconduzir o corpo ao seu poder natural de cura.
O adoecimento é visto como o resultado do desequilíbrio gerado pelo conflito entre o ZHÈNG QÌ 正 氣 (QÌ Correto) e o XIÉ QÌ 邪 氣 (QÌ Patológico). Este desequilíbrio pode ser provocado por:
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LIÙ YÍN 六 淫 (Seis Excessos),
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LÌ QÌ 戾 氣 (QÌ Epidêmico),
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QÍ QÍNG 氣 情 (Sete Emoções),
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YĬN SHÍ SHĪ TIÁO 飲 食 失調 (Dieta imprópria),
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LÀO JUÀN 勞 卷 (Fadiga por Excessos),
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WÀI SHĀNG 外 傷 (Tráumas Externos ou Mecânicos),
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CHÓNG 虫 (Parasitoses),
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DÚ 毒 (Toxinas) etc.