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COSMOLOGIA DAOISTA

O conceito de Racionalidade Médica destaca a importância da Cosmologia na constituição dos sistemas médicos complexos.

A questão da Cosmologia nas medicinas é tão fugidia e inconsciente que, no primeiro momento da pesquisa “Racionalidades Médicas”, desenvolvida no Instituto de Medicina Social, passou despercebida. As racionalidades médicas eram definidas como tendo apenas cinco dimensões. Como a medicina clássica chinesa está profundamente enraizada na cosmologia Daoísta, os estudos iniciais sobre a medicina chinesa revelaram a necessidade de incorporar esta sexta dimensão ao conceito. É interessante observar “en passant” que o grande desenvolvimento e a consolidação da medicina clássica chinesa e da cosmogonia Daoísta se verificam numa mesma época histórica, no início da instituição de um império que durou mais de 2.100 anos. O estudo da cosmologia Daoista é tão relevante para a medicina chinesa que, até o presente, faz parte do currículo das escolas de formação universitária na China.

Neste contexto, o termo “Cosmologia” não se refere à moderna disciplina, no ramo da Física, mas, sim, à forma de cada cultura apreender, através da atribuição de sentido e significado, em geral de uma maneira ordenada ou sequencial, aquilo que existe e as formas de representar a sua “realidade”. Os fundamentos das racionalidades assim descritas residem numa cosmologia ou cosmogonia. O conhecimento desta cosmologia ou cosmogonia fornece acesso aos fundamentos empregados nos discursos das diversas culturas e é um importante instrumento para compreensão da referida cultura e sua “realidade”.

O papel da Cosmologia na Medicina Ocidental Contemporânea foi sintetizado por CAMARGO JR., conforme segue:

"A Biomedicina vincula-se a um “imaginário científico” correspondente à racionalidade da mecânica clássica, caminhando no sentido de isolar componentes discretos, reintegrados a posteriori em seus “mecanismos” originais. O todo desses mecanismos é necessariamente dado pela soma das partes – eventuais inconsistências devem ser debitadas ao desconhecimento de uma ou mais “peças”.

Resumindo, essa racionalidade pode ser delineada em três proposições:

A Cosmologia Daoista que preside a Medicina Chinesa transmite a idéia de uma "realidade" em contínuo movimento e mudança, de incessante geração, onde contrariamente ao pensamento ocidental no qual o movimento e a mudança resultam de causas externas, a fixidez e o estase é que precisam ser explicados.

Haveria uma idéia de transformação criativa HUÀ SHĒNG 化生 (Criação de Vida no processo de Transformação Continuada), uma realidade vista como estando em permanente transformação, da qual o pensamento chinês busca atribuir sentido e significados captando os padrões em curso nestas transformações, focando nas qualidades e nas formas de manifestação e as mudanças de relacionamento temporais e espaciais, procurando determinar as tendências em curso para verificar como pode influenciar o desenvolvimento no sentido desejado. Assim, após um diagnóstico, referido aos conceitos de QÌ HUÀ 氣化 (Transformação de QÌ) e QÌ JĪ 氣機 (Circulação e Dinamismo de QÌ), base dos diagnósticos da Medicina Chinesa, que expressa sua interpretação da dinâmica em curso no paciente, na forma de uma combinação de "síndromes", o acupunturista busca formular uma combinação de pontos cujo efeito sobre a dinâmica em curso no paciente vá provocar os efeitos desejados, recorrendo ao poder de cura do organismo humano.

Estas características fundamentam a visão da dinâmica vital humana, a doutrina médica, o processo de diagnóstico, a formulação de terapeutica etc da medicina chinesa.

A Cosmologia Daoista, subjacente à toda a formulação da Medicina Chinesa, sintetiza esta visão de mundo e transmite instrumentos para dar sentido e significado ao observado.

No próprio texto do clássico HUÁNG DÌ NÈI JĪNG SÙ WÈN 黃帝內經 素問 (Questões Básicas), encontram-se referências explícitas à Cosmologia subjacente, como, por exemplo, nos capítulos 66 TIAN YUÁN JÌ DÀ LÚN 天元紀大論篇第六十六 e 5 YĪN YÁNG YĪNG XIÀNG DÀ LÚN 陰陽應象大論篇第五.

Recomenda-se, também, a leitura do DÀO DÉ JĪNG 道德經


Sobre a racionalidade médica Biomedicina, ver o excelente artigo "A Biomedicina", de Kenneth Rochel de CAMARGO JR, em PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 15 (Suplemento):177- 201, 2005.

Sobre a Cosmologia Daoista, ver "Cosmologia Daoista e Medicina Chinesa, Dennis LINHARES BARSTED, in As Duas Faces da Montanha. Estudos sobre Medicina Chinesa e Acupuntura, São Org. Marilene Cabral do Nascimento, Paulo, Editora HUCITEC, 2006. ,